IGREJA e igrejas


Desde as duas últimas décadas verifica-se uma profunda transformação nas igrejas cristãs. A igreja deixou de ser o lugar de encontro do cristão com Deus e com os seus irmãos, o lar dos aflitos, o espaço privilegiado onde o serviço generoso oferecido em amor, contribuía para apagar as mazelas criadas pela sociedade predatória em que vivemos.

Hoje existem muitas igrejas, fruto de uma miscelânea de religiões e credos, sem preocupação com a doutrina bíblica. O principal interesse está na conquista das massas e adoção de seus sistemas, valores e objetivos. Os cristãos não podem ser “distintamente diferentes” do mundo ao mesmo tempo em que imitam as modas, tendências, filosofias, atitudes, linguagem, hábitos, música, estilo de vida e valores desse mundo. A igreja de Jesus Cristo não pode simplesmente ser simultaneamente igual e diferente do mundo. Os seguidores professos de Cristo precisam decidir a quem irão servir.

O fato é que as igrejas não podem simplesmente copiar a cultura que desejam salvar. A Bíblia está repleta de homens tementes a Deus que ficaram sós e morreram lutando contra a heresia da mentalidade do rebanho. Não foi um Jesus tolerante quem expulsou os cambistas do templo usando um azorrague; ou um tolerante João Batista quem publicamente repreendeu o rei Herodes por se casar com a mulher de seu irmão; também não foi a tolerância que levou a maioria dos discípulos à decapitação ou à crucificação nos primeiros anos da igreja cristã. Agora que as portas estão sendo escancaradas para tudo e para todos, pergunto, a igreja está afetando a cultura ou a cultura está afetando a igreja?

Recente publicação informa que há algum tempo foi apresentada à Escola de Comunicação e Artes da USP, tese de mestrado, cujo título – O Marketing aplicado à Igreja - que por si só indica o teor da novidade. O autor sugere que a igreja deve “vender” o seu produto – a salvação – como se vende qualquer outra coisa nas sociedades modernas, desde o hambúrguer de determinada marca até os cigarros de outra. Conceitos como público alvo, logomarca, ponto de venda, promoção etc., são aplicados às igrejas, e estratégias são sugeridas para aumentar o crescimento e sua “eficiência”.

Para serem atraentes à multidão, apelam para as coisas mais esdrúxulas e até, possivelmente, delituosas: há os que gritam e se arrojam ao chão; há os convites para ofertas parceladas, de acordo com as “bênçãos” que se pretende receber; há o anúncio de prosperidade imediata; solução para os problemas de emprego e família, “milagres e sinais”, ridículos muitas vezes.

Estão vendendo Jesus como mercadoria de R$ 1,99 ou como mercadoria de origem conhecida, mas de procedência duvidosa. O “custo da fé” hoje é tão importante que deveria ser incluído nos cálculos dos índices de custo de vida. Não fique espantado se em breve não for criado um “procon” específico para receber reclamações de propaganda enganosa, “milagre” com defeito, ou “bênção” sem garantia. Do jeito que as coisas vão, a “fé” pode até gerar inflação.

Em boa parte das igrejas – boa parte não representa totalidade - pouca diferença existe entre o púlpito do culto a Deus e o palco do espetáculo teatral ou de música pop. Estamos vendo uma Babilônia religiosa. E a Igreja gloriosa, sem mácula nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível?

Autor: Ir. Amílcar Matheus Passos

Publicado no Jornal “CARTA ABERTA” Curitiba – PR – maio 2007.

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