IGREJA e igrejas

13/06/2018

 

Desde as duas últimas décadas verifica-se uma profunda transformação nas
igrejas cristãs. A igreja deixou de ser o lugar de encontro do cristão com Deus e com os seus irmãos, o lar dos aflitos, o espaço privilegiado onde o serviço generoso oferecido em amor, contribuía para apagar as mazelas criadas pela sociedade predatória em que vivemos.


Hoje existem muitas igrejas, fruto de uma miscelânea de religiões e credos, sem
preocupação com a doutrina bíblica. O principal interesse está na conquista das
massas e adoção de seus sistemas, valores e objetivos. Os cristãos não podem ser
“distintamente diferentes” do mundo ao mesmo tempo em que imitam as modas,
tendências, filosofias, atitudes, linguagem, hábitos, música, estilo de vida e valores
desse mundo. A igreja de Jesus Cristo não pode simplesmente ser simultaneamente
igual e diferente do mundo. Os seguidores professos de Cristo precisam decidir a quem irão servir.


O fato é que as igrejas não podem simplesmente copiar a cultura que desejam
salvar. A Bíblia está repleta de homens tementes a Deus que ficaram sós e morreram
lutando contra a heresia da mentalidade do rebanho. Não foi um Jesus tolerante quem
expulsou os cambistas do templo usando um azorrague; ou um tolerante João Batista
quem publicamente repreendeu o rei Herodes por se casar com a mulher de seu
irmão; também não foi a tolerância que levou a maioria dos discípulos à decapitação
ou à crucificação nos primeiros anos da igreja cristã. Agora que as portas estão sendo
escancaradas para tudo e para todos, pergunto, a igreja está afetando a cultura ou a
cultura está afetando a igreja?


Recente publicação informa que há algum tempo foi apresentada à Escola de
Comunicação e Artes da USP, tese de mestrado, cujo título – O Marketing aplicado à
Igreja - que por si só indica o teor da novidade. O autor sugere que a igreja deve
“vender” o seu produto – a salvação – como se vende qualquer outra coisa nas
sociedades modernas, desde o hambúrguer de determinada marca até os cigarros de
outra. Conceitos como público alvo, logomarca, ponto de venda, promoção etc., são
aplicados às igrejas, e estratégias são sugeridas para aumentar o crescimento e sua
“eficiência”.


Para serem atraentes à multidão, apelam para as coisas mais esdrúxulas e até,
possivelmente, delituosas: há os que gritam e se arrojam ao chão; há os convites para
ofertas parceladas, de acordo com as “bênçãos” que se pretende receber; há o
anúncio de prosperidade imediata; solução para os problemas de emprego e família,
“milagres e sinais”, ridículos muitas vezes.


Estão vendendo Jesus como mercadoria de R$ 1,99 ou como mercadoria de
origem conhecida, mas de procedência duvidosa. O “custo da fé” hoje é tão
importante que deveria ser incluído nos cálculos dos índices de custo de vida. Não
fique espantado se em breve não for criado um “procon” específico para receber
reclamações de propaganda enganosa, “milagre” com defeito, ou “bênção” sem
garantia. Do jeito que as coisas vão, a “fé” pode até gerar inflação.

 

Em boa parte das igrejas – boa parte não representa totalidade - pouca diferença existe entre o púlpito do culto a Deus e o palco do espetáculo teatral ou de música pop. Estamos vendo uma Babilônia religiosa. E a Igreja gloriosa, sem mácula nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível?

 

Autor: Ir. Amílcar Matheus Passos

Publicado no Jornal “CARTA ABERTA”
Curitiba – PR – maio 2007.

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