A dupla tendência

Nesses anos de caminhada, tenho visto duas maneiras pelas quais aprendemos a depender de Deus. A primeira é quando a vida conspira implacavelmente contra tudo que somos, fazemos ou planejamos, nos esmagando e diminuindo, até sermos reduzidos ao pó de nós mesmos.

Nesses anos de caminhada, tenho visto duas maneiras pelas quais aprendemos a depender de Deus. A primeira é quando a vida conspira implacavelmente contra tudo que somos, fazemos ou planejamos, nos esmagando e diminuindo, até sermos reduzidos ao pó de nós mesmos. São meses (às vezes anos) intermináveis, em que o trem sai dos trilhos e as situações se transformam em espelhos, diante dos quais confessamos nossa falência.

São noites de más notícias, quando as dispensas mais secretas da alma ficam vazias de suprimentos e respostas, e a solidão canta com um timbre irregular e estranho. São descompassos terríveis, lugares sem sentido, desencontros lastimáveis, preços impraticáveis, trocas em que todos saem perdendo.

Ali precisamos depender. Ali admitimos que somos fracos e estamos nas mãos de Deus, e tememos. Dependemos porque só podemos depender, porque não temos outra escolha, nem outra resposta – nada além nos resta, nada é tudo o que temos. Descobrimos que só Cristo tem as palavras de vida eterna. Por isso dependemos Dele, em tudo, e por isso somos gratos, por tudo, agraciados por tudo que temos – embora, se olharmos bem, tenhamos tão pouco! Mas como é multiplicado esse pouco! Repartimos o que quase não temos com muitos, e depois todos somos saciados com alegria… como isso é possível? Fomos arremessados na dependência, e o nome do Senhor é glorificado.

A segunda maneira pela qual dependemos de Deus está ligada à primeira. Acontece quando a vida se lembra que é nossa, que nos conhece, e para de nos ferir. A neve derrete, alguma paz começa a florescer, e sonhos sepultados acordam de sua longa hibernação. Surpresas extraordinárias começam a se amontoar à nossa porta. Logo percebemos que existe inteligência na origem de bênçãos que nos tem como seu destino. De fato, Deus as enviou como um presente muito particular para nós. Em pouco tempo começamos a ter condições, erguemos a cabeça, as notícias são boas, puxamos ar fresco.As cordilheiras da dor ficaram para trás, e na planície adiante já podemos discernir árvores e fontes.

E então, de repente, nos damos conta de que podemos escolher. Temos agora várias opções diante dos olhos e ao alcance das mãos, e nossos desejos fazem o coração dançar um fervoroso sapateado no palco peitoral. Mas é ali, nessa hora feliz, que os humildes decidem depender. É no cenário da possibilidade de suas próprias escolhas, que os dependentes de Deus escolhem permanecer no caminho da dependência! Diferente do plano natural, tal dependência não tem relação com a impossibilidade. Esses cristãos poderiam não depender – mesmo assim escolhem fazê-lo.

Dependem de Deus não porque são incapazes; antes, a maior capacidade está neles, pois são capazes de escolher depender humildemente da vontade, do tempo e do jeito divino para eles! No plano sobrenatural, depender é sinônimo de maturidade, não de fraldas.Assim, no muito que agora lhes foi dado a possuir, pouco lhes pertence, tudo continua sendo de Deus. Apesar dos ventos favoráveis conspirarem para a sua independência, não se deixam iludir e decidem prosseguir com o mesmo coração de antes. Só uma coisa mudou: dessa vez, eles mesmos se atiraram e mergulharam voluntariamente na dependência - e o nome do Senhor é, portanto, muito mais glorificado!


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